Quem Habitará no Santuário do Senhor? Uma devocional em Salmo 15

Bernardo Cho
21/5/2020
Devocional

Caro leitor, convenhamos: a vida é por vezes monótona e repetitiva, principalmente quando a cidade inteira está de quarentena, sem poder sair de casa. Fico imaginando como deve estar sendo essa rotina para aqueles que, até poucas semanas atrás, tentavam nos convencer pelo Instagram de que suas vidas eram pura emoção. E, como se não bastasse o tédio usual do dia-a-dia, os noticiários por vezes só aumentam esse sentimento de enfado. Todo dia é a mesma coisa: corrupção, injustiça, violência, jogos de poder por parte dos governantes, tragédias… e a conta sempre sobrando para nós, pobres mortais.

Os poemas contidos no Saltério podem ser igualmente monótonos e repetitivos. Basta ler alguns Salmos em sequência para ter a nítida sensação de que estamos assistindo a algum telejornal. Vez após vez, eles também falam de corrupção, de injustiça, de violência, dos jogos de poder por parte dos governantes, de tragédias… e de como nós, pobres mortais, sempre pagamos a conta. Mas o que explica essa semelhança? A vida dos salmistas era como a nossa, o mundo em que eles viveram era exatamente o nosso. Os Salmos são amiúde monótonos e repetitivos, porque são, antes de tudo, realistas. A vida pode ser monótona e repetitiva. E, em meio a essa monotonia e repetitividade, os Salmos não fingem que está tudo bem, quando de fato nada está. Os Salmos não nos propõem uma visão escapista e fantasiosa do mundo.

O problema é que uma percepção realista das coisas, quando não qualificada pela visão bíblica da revelação de Deus na história, muito facilmente evolui para uma espécie de cinismo amargo.“Ah, de que vale insistir ser fiel a Deus, se nada vai mudar no Brasil? Todo mundo faz as coisas desse jeito… Por que só eu vou ser o ‘certinho’ dessa história?” O cinismo, porém, está longe de representar aquilo que capturava a imaginação dos salmistas. Salmo 15 é um exemplo clássico dessa verdade. Nele, o salmista pressupõe que, a despeito de todo perrengue que o justo passa em sua jornada nesta vida, haverá um dia em que Deus colocará todas as coisas em seu devido lugar. (Nesse sentido, como é o caso com quase todos os poemas do Saltério, Salmo 15 destaca um tema que já está presente lá em Salmo 1 – ou seja, a pessoa que diferencia o caminho do ímpio do caminho do justo.) E,quando esse grande momento chegar, será a presença plenamente realizada do próprio Deus que definirá a realidade da pessoa que confiou na soberania do Senhor. Convido você a ler Salmo 15 com atenção:

1 Senhor, quem habitará no teu santuário?

 Quem poderá morar no teu santo monte?

2 Aquele que é íntegro em sua conduta

     e pratica o que é justo,

 que de coração fala a verdade

3 e não usa a língua para difamar,

 que nenhum mal faz ao seu semelhante

     e não lança calúnia contra o seu próximo,

4 que rejeita quem merece desprezo,

     mas honra os que temem o Senhor,

 que mantém a sua palavra,

     mesmo quando sai prejudicado,

5 que não empresta o seu dinheiro visando lucro

     nem aceita suborno contra o inocente.

 Quem assim procede

     nunca será abalado!

 

O ponto teológico central de Salmo 15 é simples. Quem poderá habitar eternamente na companhia do Senhor de todo o cosmo (Sl 15.1)? A pessoa que, além de ter aprendido a confiar em Deus sem fugir dos problemas da vida, teve somente no caráter de Deus o seu único marco de referência.

Agora, sabemos que o caráter de Deus não é necessariamente o que orienta a conduta do ímpio. Mas será que isso tem sido verdade entre aqueles que professam a fé bíblica? Infelizmente, é cada vez mais comum ver crentes – que gostam de defender a santidade de um Deus que nunca mente e cantar que a salvação é somente pela graça imerecida de Cristo –empenhados em espalhar fake news e excluir pessoas da comunhão dos santos por diferenças políticas, que não são, a princípio, questões doutrinárias ou éticas fundamentais. Evangélicos no Brasil não se definem mais pelo apego à verdade do evangelho que desemboca na “fé que atua pelo amor” (Gl 5.6; cf. 2.14). Tornou-se, antes, muito mais importante difamar e caluniar quem não vota nos políticos que o sujeito apoia. Isso é sintoma de um profundo descompasso com o Senhor das Escrituras. Será que o caráter de Deus deixou de ser o marco de referência da igreja evangélica brasileira? Se cremos de fato no Cordeiro que venceu a morte e está sobre o trono do universo (Ap 5.6), sabemos também que político nenhum é digno de receber a devoção de um povo que foi comprado pelo sangue do Filho de Deus (1 Pe 1.19). Jesus é o Senhor. César, não.

É um tanto deprimente, portanto, constatar que os mesmos fenômenos que ocasionam o tom enfadonho dos noticiários estão por trás da atitude de muitos líderes que se dizem cristãos,mas que ao mesmo tempo esvaziam a cruz de Cristo por meio de sua postura pública. Pensamos ser distintos do mundo por usar o nome de Deus em nossos projetos e eventos, mas é muito difícil identificar qualquer diferença entre o nosso jeito de ser e o caminho do ímpio. A evangelização deu lugar ao assassinato de reputações. No Monte Sinai, os israelitas, em sua ânsia por um deus alinhado às suas expectativas, construíram um bezerro de ouro, chamando-o de Yahweh (Êx 32.5). É bem possível que a igreja evangélica brasileira, em sua tara por “relevância” e “influência nas esferas de autoridade da sociedade”, tenha construído um ídolo bestial semelhante, chamando-ode Jesus. O fato é que a religião de muitos evangélicos virou apolítica partidária ditada pelos escarnecedores deste mundo, e a política partidária ditada pelos escarnecedores deste mundo virou a religião dos evangélicos. Que cansativo! (Uma das coisas mais lamentadas pelo Reverendo Timothy Keller, tão celebrado entre evangélicos conservadores e progressistas no Brasil, quando falou a um auditório lotado da Universidade Presbiteriana Mackenzie em 2019, foi que os crentes estadunidenses atualmente padecem dessa mesma praga.)

Poucos anos atrás, fui abordado por uma pessoa que tentou me convencer de que eu não deveria mais fazer parte do corpo docente do Seminário Teológico Servo de Cristo. A razão? Segundo essa pessoa, havia alguns poucos professores que não apoiavam o lado político a que ela e seus mentores teológicos se submetiam, e consequentemente a escola havia se tornado “perigosa”. Querendo me “livrar do inferno”, sequer percebeu que estava envolvida em uma trágica caça às bruxas. Se fosse por algum ensino heterodoxo que estivesse sendo transmitido em nossa instituição, eu até entenderia. Mas por opinião política?! Em resposta, afirmei que o que define a saúde de uma instituição de ensino teológico é primordialmente sua proximidade às Escrituras e à tradição da Igreja – coisa que, pela graça de Deus, permanece intacta ao longo dos 30 anos de existência do seminário. Disse também que, se houvesse algo a ser aprimorado, ou até mesmo corrigido, isso deveria ser feito no contexto de uma discussão honesta de ideias, não por argumentos ad hominem. Mas de nada adiantou. A pessoa em questão, juntamente com seus mentores teológicos, ainda estão bem engajados em cruzadas contra a dignidade daqueles que, permanecendo ortodoxos, desaprovam seus políticos de estimação.(De todo modo, é sempre um alívio ver a reação de nossos alunos, quando ficam sabendo desse tipo acusação: todos acham que é piada!)

Talvez, então, não seja exagero dizer que ideologia is the new circuncisão. Afinal, quando crentes à esquerda do espectro ideológico vivem de mandar à condenação eterna gente à direita– e vice-versa –, e quando eu só posso ter comunhão contigo, se apoiamos o mesmo lado ideológico, é porque a confiança no Cristo bíblico deixou de ser o único meio de nossa justificação.

Contudo, à luz de Salmo 15, nada pode contradizer mais a vocação do povo de Deus do que tal atitude! Como, então, podemos resistir ao cinismo que brota em nossos corações diante deste estado das coisas?

Permita que as palavras do salmista nos versos 2-5 sirvam de espelho para a sua alma. No final de tudo, a justiça de Deus triunfará para aqueles que viveram à luz do caráter de Deus, não de preferências partidárias:“Quem assim procede” – ou seja, quem é íntegro, fala a verdade de coração, não sem envolve em difamações e calúnias contra seus irmãos, cumpre o que diz e não idolatra o dinheiro – “nunca será abalado!” (Sl 15.2-5). Assim, Salmo 15 nos lembra de que,enquanto a igreja evangélica cai no feitiço demoníaco de dividir o mundo entre esquerda e direita, há somente dois tipos de pessoas na perspectiva de Deus: o justo e o ímpio – ou, na linguagem neotestamentária, o discípulo de Jesus e a pessoa que, por mais que invoque o nome de Cristo, não é um seguidor de verdade. E uma coisa que o discípulo sabe é que Jesus, o (único e verdadeiro) Messias que plenificou a Lei e os Profetas (Mt 5.17), viveu a realidade de Salmo 15 com perfeição e abriu o caminho para que seu povo trilhasse nele. O inferno estará repleto de gente que votou em Lula, em Bolsonaro e até mesmo nulo. Para Deus, seu voto tem importância penúltima. A salvação eterna é daqueles que fizeram do caráter de Deus, perfeitamente revelado em Jesus, sua verdadeira comida e sua verdadeira bebida (Jo 6.25-59). Estes, sim, jamais serão abalados. Que o Senhor nos ajude a sermos contados entre aqueles que seguiram pelo caminho da vida,quando o grande dia da prestação de contas chegar. “Nem todo aquele que me diz: ‘Senhor,Senhor’, entrará no Reino dos céus, mas apenas aquele que faz a vontade de meu Pai que está nos céus. Muitos me dirão naquele dia: ‘Senhor, Senhor, não profetizamos em teu nome? Em teu nome não expulsamos demônios e não realizamos muitos milagres?’ Então eu lhes direi claramente: Nunca os conheci. Afastem-sede mim vocês, que praticam o mal!” (Mt7.21-23).