O papo é outro

Ziel Machado
25/2/2019
Devocional

Aos poucos vou me afastando de alguns espaços, vou me afastando de algumas rodas, o motivo; se fala muito. Meus amigos e amigas de corrida tem me ensinado muitas lições, uma delas é sobre a concretude de uma intenção. Não tem papo se não houve treino!

Funciona assim. No final do treino de cada um, vamos nos aproximando da base de apoio para um tempo juntos de cuidado e descanso. Ao chegar, começa a série de perguntas de verificação; tudo bem? Alguma dor? Alguma outra observação? Quantos km você correu hoje?

Enquanto alguém lhe oferece algo para tomar, algo para comer, vem um pouco de zoação saudável e, em seguida, falamos sobre as corridas que queremos fazer. A base de toda conversa está no compromisso expresso do treino realizado. Ninguém leva a sério uma pessoa que deseja fazer uma maratona mas não treina. Intenção sem compromisso comprovado é papo delirante. Este povo da corrida tem um Q de sabedoria bíblica.

Justamente por isso estou me afastando de alguns espaços acadêmicos, religiosos,considerados importantes, onde se fala muito mas, quando você pergunta pelas ações de compromisso, ao invés de fatos, você recebe mais "manifestação de intenções " "ideias salvadoras", atualização de informação que,com a qual ou sem a qual, o mundo continua tal e qual.

Estes espaços são profundamente estéreis, cansativos, polêmicos mas, infelizmente,famosos e atrativos. É quase um pecado não fazer parte disso, uma auto condenação a "irrelevância ". Pois eu cansei disso, como dizem os mais jovens, "tô fora!"

No dia a dia como pastor, como professor, sou levado a lidar com dores e questões reais. No dia a dia, como corredor, tenho que gastar o tênis percorrendo as distâncias propostas. Entre o sucesso da visibilidade e a discrição da significância, prefiro o segundo.

Da minha janela eu via, a cada manhã, a beleza deste cenário. Quando eu colocava o tênis e saia correndo por este vale austríaco minha percepção de sua beleza ganhava outra dimensão. Já não era uma elaboração mental de quem observava de longe a realidade tentando descrevê-la. Minhas pernas me ajudaram a conhecer ador de suas subidas, meu olfato me ajudava a conhecer o cheiro dos estábulos, o cheiro do mato molhado pelo rio que ali passa. O meu olhar cruzou com os olhares de vacas enormes, lindas, super desconfiadas ao me verem passar (juro que dei bom dia em alemão kkk). No final do percurso o papo era outro.