O cristão e a urna

Luiz Fernando dos Santos
4/10/2018
Devocional

“Como um leão que ruge ou um urso feroz é o ímpio que governa um povo necessitado.” (Pv 28.15)

Estamos na iminência da realização das eleições majoritárias no Brasil. Possivelmente nenhum pleito tenha sido tão complexo e tão difícil como esse de 2018. A nossa comunidade de fé vem se preparando com as aulas especiais na Escola Bíblica Dominical. Nossa intenção não é definir candidatos, não indicamos em quem se deve votar e muito menos exercemos qualquer pressão sobre as consciências. Nosso intuito é o de esclarecer o sistema eleitoral e político vigente, as funções de cada cargo e o quê ou a quem representam. Com a nossa compreensão das Escrituras, a partir de uma cosmovisão cristã, entendemos que a realidade só é satisfatoriamente concebida à luz da vontade de Deus e os princípios do Reino definitivo.

Política é também uma questão teológica. Não se trata, evidentemente, de misturar religião e política, Igreja e Estado, ou instrumentalizar ambos com o desejo de poder. Nossa intenção é justamente compreender a natureza distinta de cada esfera de poder, sua extensão e limites e a nossa responsável participação em cada uma delas.

Os princípios e os valores do Reino de Deus devem ser a nossa bússola moral quando o assunto é política. Participamos da política de maneira adequada aos princípios gerais do Reino quando passamos a entender que o voto de cada eleitor não tem preço, mas tem consequências. Isto quer dizer que a nossa escolha não pode ser motivada por qualquer vantagem pessoal indevida. O voto é muito precioso para ser vendido ou trocado por dinheiro, caixas de cerveja, camisas de times de futebol, sacos de cimento, dentaduras ou promessas mirabolantes.

O voto tem consequências morais e éticas que alcançam dimensões para muito além dos interesses pessoais e imediatos e pode comprometer o presente e o futuro de uma sociedade inteira. Atente para o que diz o sábio Rei Salomão: “Quando os justos florescem, o povo se alegra; quando os ímpios governam, o povo geme(Pv 29.2). Logo, há impiedade em um voto corrompido e prostituído quando motivado por instintos egoístas. Como homens e mulheres iluminados pela verdade que procede de Deus levamos em conta que: “Quando os ímpios sobem ao poder, o povo se esconde, mas quando eles sucumbem, os justos florescem” (Pv28.28) e ainda “ Quando os justos triunfam, há prosperidade geral” (Pv28.12 a), isto significa que como eleitores cristãos é nosso dever levar à sério e ter em conta a vida pregressa de cada candidato. Como a própria etimologia da palavra indica, deve ser alguém “cândido”, ou seja, ter um passado “branco”, “limpo”, não deve ter coisa alguma provada e comprovada que o desabone moralmente para o exercício da função que lhe delegamos em nosso nome. Isto quer dizer alguma coisa quanto ao presente também. As ideologias e as políticas (projetos de leis e plataformas de governo) defendidas por sua legenda e coligação devem ser analisados criticamente à luz das Escrituras.

Claro que não se trata do sonho de uma “Teocracia Cristã”, aliás, nem há espaço para tal coisa na Bíblia. Todavia, existem princípios que dizem respeito à vida e a dignidade humana que são inegociáveis e que devem ser respeitados e protegidos pelo Estado laico, como este deve ser. Quando o Estado (agentes políticos e suas pretensões) se intromete na esfera da família como, aborto, casamento, educação (correção) dos filhos ou na seara da Igreja proibindo posicionamentos sobre moralidade, evidentemente que ele(Estado, agente político) está extrapolando a sua função. O mesmo se diz da Igreja ou agente da religião que deseje controlar o Estado, igualmente usurpa uma instância de poder que não lhe diz respeito. O cristão deve levar em conta sim quem são os apoiadores e companheiros de cada aspirante aos cargos públicos. A Bíblia adverte solenemente: “As más companhias corrompem os bons costumes” (1 Co 15.33) e ainda: “ Para o governante que dá ouvidos a mentiras, todos os seus oficiais são ímpios” (Pv29.12) e mais “O rei que exerce a justiça dá estabilidade ao país, mas o que gosta de subornos o leva a ruína” (Pv 29.4).

Saber com quem o candidato poderá e quererá contar num futuro governo pode fazer toda a diferença. Assim, participar da vida pública na seara política para um cristão é também questão de maturidade na fé e entendimento integral da Bíblia. Seja votando conscientemente, seja concorrendo a cargos públicos eletivos ou cooperando em outras modalidades como fim de promover o bem público, o fundamento será sempre o mesmo, a promoção do Reino de Deus e a extensão do Governo do Rei nas engrenagens desse mundo até a consumação de todas as coisas, quando nos novos Céus e na nova Terra: “Justiça e paz se beijarão” (Sl 85.10). Até que esse dia chegue, com a consciência atrelada à verdade e livres de toda maldade, façamos aquelas escolhas que desde agora promovam a paz e a prosperidade do nosso país.