Martinho Lutero contra o individualismo hermenêutico atual

Bernardo Cho
16/8/2018
Hermenêutica

“Tenho aprendido a atribuir honra somente aos livros que são chamados canônicos, já que tenho plena convicção de que nenhum de seus autores falhou”. Assim afirmou em 1519 o então ainda monge agostiniano e professor de Bíblia da Universidade de Wittenberg, Martinho Lutero.[1]

Foi motivado pela convicção de que somente os livros canônicos da Bíblia possuem autoridade suprema sobre tudo que diz respeito à fé e prática cristãs que Lutero deu origem a um dos mais importantes pilares de sustentação da identidade Protestante: o princípio do sola Scriptura. De fato, uma das maiores contribuições do Protestantismo foi devolver a uma fração da Cristandade o status de “povo do livro”.  Até 1522, quando Lutero começou a traduzir o Novo Testamento para o alemão enquanto escondido no Castelo de Wartburg, o único contato que a grande maioria das pessoas tinha com a Bíblia acontecia durante as missas, sempre em latim. E o simples fato de que, a partir daquele ponto na história, pessoas sem educação formal alguma poderiam ter acesso à Palavra de Deus no vernáculo provou-se profundamente revolucionário. Essa democratização dos escritos sagrados não somente permitiu maior familiaridade com o texto bíblico por parte da população comum, mas também serviu de mola propulsora para um processo de alfabetização generalizada na Europa. Podemos notar, por exemplo, o impacto do Pietismo alemão liderado por Philipp Spener e August Francke a partir do século XVII, que depois veio a influenciar ninguém menos que o avivalista britânico e fundador do Metodismo, John Wesley. A Reforma Protestante, portanto, definitivamente colocou a Bíblia de volta nas mãos do povo.

Se dermos um fast forward na história, notaremos que a Reforma contribuiu também para o estabelecimento de uma disciplina muito importante dentro das ciências humanas: a Hermenêutica. Posto de maneira simples, a Hermenêutica, cujo nome vem do termo grego hermēneia, é a ciência que estuda o processo de interpretação de um determinado texto e se ocupa em identificar onde exatamente se localiza o seu significado. E os teoristas têm defendido basicamente três dimensões onde o sentido de um texto pode ser localizado: o autor, o próprio texto, e o leitor. (No primeiro caso, a intenção do autor é o que mais importa na hora de se determinar o sentido do texto [cf. historicismo pós-deísta]. No segundo, não há significado fora da estrutura literária e da lógica interna do texto [cf. crítica literária]. E, no terceiro, o texto não tem significado, senão naquilo que a experiência do leitor constrói [cf. desconstrucionismo pós-moderno].) O que é importante para o assunto que desejo tratar aqui é que, embora seja bem depois da Reforma que a Hermenêutica tenha se consolidado como a disciplina acadêmica presente hoje nas universidades, ela sempre esteve atrelada aos interesses teológicos dos Reformadores. Isso porque a própria Reforma representou em larga medida uma reforma hermenêutica, interpretativa.

Um detalhe crucial para entendermos o evento do dia 31 de outubro de 1517, quando Lutero tornou públicas as suas 95 teses contra as indulgências da Igreja Católica de sua época, diz respeito àquilo o impulsionou a fazer o que fez. Boa parte do que motivou o monge alemão a protestar contra a venda de indulgências foi um entendimento mais claro que ele havia adquirido por meio das Escrituras acerca de assuntos doutrinários como, por exemplo, a justiça de Deus e a autoridade papal. E a Bíblia foi tão importante nesse processo que Lutero sempre insistiu em mantê-la no centro de todas as discussões com seus adversários. O resultado inevitável disso foi a quebra do monopólio interpretativo que a Cúria arrogava para si ao afirmar que não existia leitura bíblica válida fora daquilo que a Igreja Católica ensinava.

Perceber o elemento hermenêutico que impulsionou a Reforma é imperativo hoje porque há no meio evangélico um entendimento bastante equivocado das implicações do sola Scriptura, que, por sua vez, tem acarretado consequências desastrosas. Muitos diriam que o que Lutero desejou com a Reforma foi que todas as pessoas tivessem livre acesso aos textos sagrados, sem depender de ninguém para entendê-los. Basta o sujeito pegar o metrô até a Conde de Sarzedas, comprar a versão da Bíblia que tenha mais a ver com a sua tribo – a Bíblia "do homem", "do empresário" ou até, se já estiver disponível no mercado, "do vegano" –, fechar a porta do seu quarto, ligar a faixa de alguma banda gospel estrangeira e focar os olhos em alguma passagem até que as palavras "saltem das páginas" e falem ao seu coração. Segundo o entendimento evangélico popular, em outras palavras, ser Protestante e crer no sola Scriptura significa meramente ler as Escrituras por si só, sem a ajuda – muito menos a instrução – de absolutamente ninguém. No entanto, tal equívoco tem servido de pretexto para a ideia ainda mais problemática de que o indivíduo possui não somente a capacidade de resolver solitariamente todos os mistérios da Bíblia, como também o direito de interpretá-la do jeito que desejar. E é ainda mais trágico reconhecer ­– pelo menos para mim, evangélico de origem carismática – que o contexto onde esse individualismo hermenêutico tem deixado o seu rastro mais nitidamente nocivo é o das igrejas carismáticas em crescimento no mundo e no Brasil.

O pastor de uma das igrejas carismáticas norte-americanas mais influentes no mundo, por exemplo, é também líder de um movimento autodenominado “apostólico e profético”, que prega abertamente que cristãos não devem perder o seu tempo estudando os textos sagrados. Ele constrói essa ideia seguindo um erro de interpretação bastante conhecido: na afirmação de Paulo em 2 Co 3.6, “a letra mata, mas o Espírito vivifica”, a palavra “letra [gramma]” é lida equivocadamente como uma referência ao estudo das Escrituras. Aparentemente, para esse pastor, buscar uma educação bíblica formal é fechar o acesso imediato à Palavra de Deus e trair o ideal defendido pelos Reformadores. A maneira mais nobre de se honrar a herança Protestante, portanto, seria dependendo somente de insight espiritual para que se compreenda os mistérios “profundos” contidos nas Escrituras.

Acontece que um dos seguidores mais próximos desse pastor era um jovem que recebia revelações “frescas” da parte de Deus, inclusive sobre o “verdadeiro” sentido de passagens bíblicas difíceis. Recentemente, porém, tornou-se público que o jovem discípulo andava pregando doutrinas bastante bizarras – coisas do tipo “os seres humanos são manipulados por extraterrestres” e “a Bíblia não passa de ficção de conspiradores”. Em reposta, o pastor acusou o seu discípulo de estar sob a influência de um espírito de engano e exortou a sua igreja a orar pela situação, para que Deus trouxesse o jovem ao arrependimento. O que chama a atenção neste episódio, porém, é que ele deixa muito claro o caráter profundamente autocontraditório do individualismo hermenêutico de que estamos tratando. Ora, o jovem discípulo começou a defender suas doutrinas heterodoxas presumivelmente a partir da prerrogativa que alegava ter de receber novas interpretações diretamente de Deus e de anjos. (Não espanta que por trás de toda seita paire o velho fantasma do Gnosticismo?!) A dificuldade, no entanto, é que, embora o pastor tenha denunciado publicamente os erros de seu discípulo, em sua própria rejeição da importância do estudo cuidadoso das Escrituras, o primeiro sequer tinha critérios objetivos para avaliar se o segundo realmente estava seguindo doutrinas de demônios ou não. Como é que alguém que diz ler a Bíblia somente “pelo Espírito” pode usar a Bíblia para refutar um ensino falso pregado por outra pessoa que também interpreta a Bíblia supostamente “pelo Espírito”?­ Se aquilo que eu entendo da Bíblia foi revelado pelo Espírito, quem poderá dizer que estou enganado?

O ponto é que esse individualismo hermenêutico tem tiranizado muitos evangélicos, aprisionando-os num subjetivismo absolutamente enganoso, em que o texto bíblico não tem significado objetivo algum à parte daquilo que o próprio leitor construir. Esse entendimento falso sobre o sola Scriptura sequestrou qualquer possibilidade de se encontrar a verdade bíblica de maneira objetiva. Jacques Derrida e Stanley Fish, grandes proponentes da crença relativista de que não existe acesso à verdade absoluta, aplaudiriam de pé tal feito! Diante deste estado de coisas, é impossível não concordarmos, pelo menos em parte, com Hans Boersma e Peter Leithard, quando sugerem que o fruto do individualismo hermenêutico evangélico é o fato de termos tantas interpretações evangélicas da Bíblia quanto há igrejas evangélicas no mundo.[2] E é aqui que está a grande ironia: muitos evangélicos se gloriam de não terem um Papa, mas pouquíssimos destes mesmos evangélicos sequer se dão conta de que o seu individualismo hermenêutico criou muitos outros “papas”. Concluímos com isso que temos corrido o sério risco de voltarmos a uma hermenêutica pré-Reforma.

Mas o que será que Lutero diria se estivesse vivo hoje? Como será que o ideal originalmente proposto pelo grande Reformador alemão poderia nos ajudar?

Para Lutero, o princípio do sola Scriptura começava no reconhecimento de que o sentido básico da Bíblia é absolutamente acessível e confiável a qualquer pessoa que se aproxime dela. Num tratado escrito em 1520, Lutero afirma que “o significado da Escritura é em si mesmo tão certo, acessível e claro, que a Escritura não somente interpreta a si mesma, como também testa, julga e ilumina todas as outras coisas”.[3] No que diz respeito à possibilidade de compreensão da salvação que há em Cristo, qualquer pessoa pode se aproximar do texto bíblico, sabendo que o seu sentido é “certo, acessível e claro”. O que segue disso é que as Escrituras são confiáveis para conduzir o leitor à fé em Cristo e ajudá-lo a avaliar o que ele outrora acreditava acerca de Deus e do evangelho. Nesse processo, o Espírito Santo cumpre, sim, o papel importantíssimo de iluminar a mente e o coração do leitor, de maneira que o intérprete enxergue o ponto central e o clímax de toda história bíblica, que é Cristo. O que isso pressupõe, todavia, é que o leitor tenha o mínimo de sensatez e leia o texto sagrado respeitando os limites do bom senso estabelecidos pelo próprio cânon. É mais ou menos isso que a ideia de que a Escritura "interpreta a si mesma” sugere: as partes fáceis da Bíblia ajudam a elucidar as partes obscuras, de maneira que a Palavra de Deus não se contradiz. Vale lembrar que por trás do princípio da clareza das Escrituras está o protesto de Lutero contra a prática da Igreja Católica de sua época de interpretar a Bíblia alegoricamente, tentando extrair de suas páginas o “sentido espiritual” das passagens. Sendo assim, a ênfase que Lutero dá à clareza das Escrituras contradiz veementemente a ideia de que o sujeito precisa de revelações místicas para entender o verdadeiro sentido do texto bíblico.

Por outro lado, o que Lutero, ao lado dos outros Reformadores, certamente não quis dizer é que a Bíblia é acessível em absolutamente todos os detalhes. Na verdade, o ideal hermenêutico da Reforma enfatiza a importância de se prestar atenção tanto ao contexto como ao conteúdo de cada livro canônico.[4] E o próprio Lutero foi um ótimo exemplo de alguém que fazia isso. Profundamente influenciado pelo humanismo – movimento renascentista encapsulado na expressão ad fontes, que buscava resgatar as disciplinas clássicas e voltar às fontes primárias da civilização ocidental –, o entendimento bíblico de Lutero ganhou novas dimensões somente quando ele começou a estudar as Escrituras nas línguas originais. Isso significa que a Reforma não foi o resultado de uma leitura superficial e fora do contexto de algumas passagens bíblicas que Lutero porventura teria feito na manhã de 31 de outubro de 1517. As 95 teses foram fruto de anos em que Lutero se debruçou sobre a Palavra de Deus e testou suas ideias diante de seus colegas numa importante universidade da Alemanha. E é muito instrutivo para nós que esse mesmo Lutero não somente denunciou os erros da Igreja de Roma usando argumentos embasados na Bíblia, como também teve que lidar com movimentos paralelos que defendiam a ideia de que quem era verdadeiramente detentor do Espírito Santo não precisava estudar a Bíblia. (Veja, por exemplo, os casos de Caspar von Schwenckfeld e Thomas Müntzer.[5]) Em contraste com esse tipo de tendência misticista, Lutero dizia que a mente do Espírito Santo poderia ser conhecida e discernida somente por meio das Escrituras (cf. Ef 6.17). Num tratado escrito em 1525, o reformador alemão sugere que a iluminação que o Espírito Santo traz no interior da pessoa só é legítima quando ela está intimamente ligada à iluminação que o Espírito Santo traz no exterior da pessoa por meio de uma interpretação correta da Palavra de Deus.[6]

É importante lembrar também que a Reforma jamais se propôs rejeitar totalmente os séculos de Tradição que havia a antecedido. Não existe erro mais grotesco do que dizer que a Reforma simplesmente jogou no lixo toda a Tradição da Igreja, e não existe mentira mais absurda do que dizer que ser Protestante é não precisar da Tradição da Igreja! Claro, Lutero questionou muitas ideias falsas que já haviam se cristalizado na Igreja Católica de sua época – como determinadas doutrinas acerca dos sacramentos –, mas, como nota Kevin Vanhoozer, o “somente pela Escritura” da Reforma nunca foi sinônimo de “absolutamente nenhuma Tradição”.[7] Na verdade, Lutero tinha os Credos na mais elevada estima, sempre afirmando a sua importância na articulação das principais doutrinas cristãs. O que o sola Scriptura realmente defendia era simplesmente que tudo, inclusive a Tradição Cristã, deveria ser constantemente avaliado pelos textos canônicos. Nas palavras de Iain Provan, o propósito do sola Scriptura “era proteger e melhorar a habilidade da Igreja de discriminar crenças e práticas que eram de fato bíblicas e apostólicas de crenças e práticas que não eram”.[8] Portanto, uma interpretação bíblica genuinamente Protestante deve rejeitar qualquer tipo de individualismo hermenêutico e entender que a Bíblia foi às mãos do povo para que ela pudesse, sim, ser lida, mas lida corretamente, juntamente com os mestres da Igreja e com uma comunidade de santos que se espalha por dois milênios de história.

Se Lutero ainda estivesse vivo, eu suspeito que ele nos exortaria a abandonar o individualismo hermenêutico adotado por boa parte dos evangélicos hoje. Ele diria que essa abordagem aprisiona a Palavra de Deus num tipo de subjetivismo obscurantista, inimigo da fé Protestante. E, ao contrário do que muitos possam pensar, o grande Reformador alemão provavelmente não diria que a igreja evangélica atual carece de novos reformadores. Penso que Lutero diria simplesmente que precisamos ser fieis à herança que recebemos dos antigos Reformadores, dedicando nossas vidas ao estudo responsável das línguas originais, do mundo antigo a partir do qual as Escrituras emergiram e da história da interpretação bíblica ao longo dos séculos. (Sobre a importância das línguas bíblicas originais, veja neste mesmo blog “O estudo da Bíblia nas línguas originais é mesmo necessário?”) Sou tentado a achar até que Lutero sentiria uma certa inveja de nós, já que os estudos bíblicos avançaram de tal maneira nos últimos 500 anos que o próprio ex-professor da Universidade de Wittenberg corrigiria algumas conclusões teológicas a que eventualmente chegou.

Seja lá o que for, o que nós evangélicos precisamos hoje é de pessoas tão cheias do Espírito Santo que não têm medo de permitir que os seus pressupostos sejam corrigidos pelas Escrituras. Ser cheio do Espírito Santo, afinal, é também amar a verdade fervorosamente. Precisamos de pessoas que, a exemplo de Lutero na Dieta de Worms, tenham a mente totalmente cativa à Palavra de Deus diante da tendência perene de se manter a Palavra de Deus cativa à doutrina de homens. Os Reformadores correram a corrida que lhes foi proposta. O bastão agora está em nossas mãos.

[1] Against the Malignant Indictment of John Eck (1519).

[2] Iain Provan (The Reformation and the Right Reading of Scripture [Waco: Baylor University Press, 2017]) e Kevin J. Vanhoozer (Autoridade Bíblica Pós-Reforma [São Paulo: Edições Vida Nova, 2017]) apresentam duas das mais robustas defesas recentes do Protestantismo contra alguns de seus principais críticos atuais.

[3] Assertion of All the Articles (1520).

[4] Johann A. Steiger, “The Development of the Reformation Legacy: Hermeneutics and Interpretation of the Sacred Scripture in the Age of Orthodoxy”, HBOT 2 (2008), 723.

[5] Provan, Reformation, 292­–4.

[6] The Bondage of the Will (1525); cf. Provan, Reformation, 295.

[7] Vanhoozer, Autoridade, 151.

[8] Provan, Reformation, 297.