Teologia Brasileira: Reflexões sobre a sua natureza e possibilidade

Carlos Vailatti
19/3/2019
Devocional

Introdução

Anos atrás, enquanto estudava teologia, costumava circular entre os colegas seminaristas o seguinte pensamento anedótico de autoria desconhecida: “a teologia é como o vinho: envasada na Alemanha, envelhecida na Inglaterra, deteriorada nos EUA e, finalmente, exportada para o Brasil”. Esse clichê popular, já bastante gasto pelo uso, retrata o Brasil, no cenário teológico internacional, como aqueles cachorrinhos de Mateus 15:26-27, o qual, longe de ser produtor de boa teologia, constitui-se apenas mero consumidor das “migalhas teológicas” que caem da escrivaninha de teólogos estrangeiros. Ora, ninguém, em sã consciência, pode negar o importante contributo do pensamento europeu e americano para a teologia mundial. Isso é inquestionável. Entretanto, isto significa que não existe uma teologia brasileira? Ou melhor, podemos falar sobre uma teologia brasileira? Caso afirmativo, o que seria isso? O presente ensaio se propõe a refletir brevemente sobre a natureza e a viabilidade ou não da construção de tal tipo de teologia.

I. Definindo “Teologia Brasileira”

Antes de qualquer coisa, o bom senso pede que não desprezemos o auxílio da taxonomia. Sendo assim, o que queremos dizer com “teologia brasileira”? Gondim observa que “só há uma teologia, mas ela precisa ler a realidade onde está sendo vivenciada” e, em seguida,afirma que “Teologia Brasileira é teologia bíblica com gosto de moqueca de camarão, que refrigere como graviola e que seja pregada com ritmo afro-brasileiro”.(1) Já para Rezende, “teologia brasileira [é] a própria teologia, apenas voltada para a nossa realidade. Trata dos princípios teológicos sem limitações geográficas, mas entranhados nos usos e costumes da alma brasileira”.(2) Mais adiante, esse mesmo autor declarará que “é correto dizer-se Teologia e Teologia brasileira, competindo a esta última refletir com clareza as preocupações nacionais e falar a nossa língua viva, evitando os sotaques que denunciam interesses de outros povos”.(3) Bem, a partir dessas brevíssimas considerações, propomos a seguinte definição de teologia brasileira: é aquela teologia produzida por teólogos brasileiros (natos, naturalizados ou radicados no Brasil), verbalizada e/ou escrita em língua portuguesa, versada sobre os temas pertinentes à nossa realidade, mas também reflexiva sobre as questões teológicas universais e, por fim, destinada ao público brasileiro (principalmente), mas não exclusivamente.

II. Explicando a Definição

Tendo sugerido uma definição de “teologia brasileira”, compete-nos agora fornecer uma explicação complementar sobre o sentido de cada uma das três proposições que constituíram tal conceituação. Ei-la abaixo.

2.1.Teologia brasileira é aquela teologia que é produzida por teólogos brasileiros (natos, naturalizados ou radicados no Brasil), verbalizada ou escrita em língua portuguesa. Em primeiro lugar,uma teologia que se propõe brasileira deve ser produzida por alguém que se identifique com a nossa “brasilidade”.(4) Além disso, é imprescindível a uma teologia que tenha a pretensão de ser brasileira o ato de ser expressa/articulada em português, o nosso idioma pátrio. Como disse Wierzbicka, “as línguas são o melhor espelho das culturas humanas, e é através do vocabulário e da gramática das línguas humanas que nós podemos descobrir e identificar as configurações conceituais culturais específicas características dos diferentes povos do mundo”.(5) Assim, a brasilidade e a língua portuguesa são dois componentes indispensáveis para o construto de uma teologia genuinamente tupiniquim.

2.2. Teologia brasileira é aquela que é versada sobre os temas pertinentes à nossa realidade, mas também reflexiva sobre as questões teológicas universais. Uma teologia brasileira deve ser alicerçada em nossas idiossincrasias, contemplando, entre outros, nossos dilemas e angústias, crises, esperanças e aspirações. Aqui devem ser exploradas as nossas “jabuticabas existenciais” (por exemplo, o denominado “jeitinho brasileiro”, em seus aspectos positivos e negativos),(6) patrimônio constitutivo de nossa cosmovisão tupiniquim, bem como as questões teológicas de âmbito global, filtradas e refletidas, evidentemente, a partir das lentes da nossa brasilidade. Será que temos conseguido produzir algo que se aproxime disso? Shedd respondeu a essa indagação com um certo ceticismo, afirmando que “uma Teologia brasileira mesmo, que trata de questões mais específicas sobre o Brasil, não vemos por aí”.(7)

2.3. Teologia brasileira é aquela que é destinada ao público brasileiro (principalmente), mas não exclusivamente. Por fim,como consequência necessária dos dois pressupostos anteriores, segue-se que a teologia aqui apresentada deverá ter como seu principal (mas não único) destinatário, o público brasileiro. Embora tal proposição soe provinciana e bairrista, ela é absolutamente coerente com a presente proposta. Isto não significa, porém, que tal teologia deva ser ensimesmada, fechada em si mesma e entrincheirada em seu gueto teologal. Em vez disso, tal teologia deve dialogar criticamente com outros pensamentos teológicos globais, mas, ao fazê-lo, deve trazer a sua compreensão e contribuição particulares sobre tais assuntos, sempre (nunca é demais lembrar) a partir da perspectiva de sua brasilidade.

Conclusão

Em vista desses sucintos apontamentos, cabe perguntar: a definição de teologia brasileira que propusemos é adequada? Ela contempla os requisitos necessários mínimos para ser caracterizada como tal? Caso afirmativo, quais teólogos a têm produzido na atualidade?  Se não, o que lhe falta?  Enfim, talvez tenhamos mais perguntas a fazer do que respostas a dar. Seja como for, fica aqui a nossa ponderação sobre o assunto.

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Referências bibliográficas:

(1) GONDIM, Ricardo. Artesãos de uma Nova História. São Paulo, Candeia, 2004, p.131.

(2) REZENDE, Jonas. Uma Investigação Teológica da Comunicação.Rio de Janeiro, Mauad X, 2014, p.21.

(3) Idem, Ibidem, p.22.

(4) A nossa conceituação de brasilidade segue a definição de Guimarães Rosa, segundo quem “brasilidade é talvez um sentir-pensar [brasileiro]”.(cf. LORENZ, Günter W. Diálogo com Guimarães Rosa. In: COUTINHO, Eduardo de Faria. (Org.). Guimarães Rosa. Rio de Janeiro/Brasília,Civilização Brasileira/INL, 1983, p.91. O acréscimo entre colchetes é nosso). Levando-se em consideração tal definição, pode-se questionar: um teólogo que reside fora do Brasil (sendo ele brasileiro ou não) também pode produzir uma teologia brasileira? Eu responderia a essa pergunta, dizendo: se o seu pensamento teológico estiver embebido em nossa brasilidade e refleti-la, então a resposta é “sim”.

(5) WIERZBICKA, Anna. The Alphabet of Human Thoughts. In: GEIGER, Richard A. &RUDZKA-OSTYN, Brygida. (Eds.). Conceptualizationsand Mental Processing in Language. Berlin and New York, Mouton de Gruyter, 1993,p.41.

(6)] Da perspectiva católica, Antoniazzi comenta que “a originalidade da teologia brasileira não reside tanto no que se diz, mas na correlação que procura sempre guardar entre vida e teologia, entre prática eclesial e reflexão teórica”. (cf. ANTONIAZZI, Alberto. CRB: Dez Anos de Teologia. Rio de Janeiro, Conferência dos Religiosos do Brasil, 1982, p.20). Uma teologia que verse sobre o “jeitinho brasileiro” nada mais é do que uma teologia moral, isto é, uma teologia que se interessa pelo comportamento do brasileiro no que tange aos princípios éticos/morais e religiosos.

(7) Disponível em:<http://comunhao.com.br/entrevista-com-russel-shedd/>. Consultado em 06/03/2019.