Paz com Deus

Caio Peres
15/7/2019
Exegese

Introdução

Uma das expressões cristãs mais significativas é a que afirma termos paz com Deus. Essa expressão exata aparece em Romanos 5.1, onde Paulo fala sobre termos paz com Deus como resultado de nossa justificação pela fé. Essa paz com Deus, mais para frente, é uma forma de Paulo falar sobre sermos salvos da ira e estarmos reconciliados com Deus.

Acredito que muitos aqui estão acostumados com essa forma de falar sobre nossa relação com Deus. Mas hoje eu quero provocar um pouco a imaginação do leitor. Quero falar sobre paz com Deus na experiência de comunhão de mesa. Para muitos, isso é problemático, pois comida é tão material e mundano, enquanto Deus é tão espiritual e celestial. No entanto, quero apresentar como o relacionamento com Deus, tanto no Antigo Testamento, quanto no Novo Testamento, se dá num ambiente de comunhão de mesa.

A Oferta Shelamim

Eu introduzi esse texto falando sobre estarmos em “paz com Deus” exatamente por causa do nome de uma das ofertas que existia no antigo Israel: a oferta shelamim (hebraico, zebaḥ š e lāmîm). O nome dessa oferta vem exatamente do termo hebraico, shalom, paz ou bem-estar pleno. Portanto, estamos falando de uma oferta “de paz”. Por alguns motivos, eu diria que a oferta shelamim não é um sacrifício que estabelece a paz entre o ofertante e Deus, mas um sacrifício que é feito a fim de o ofertante e Deus experimentarem o resultado de estarem em paz.

Vamos considerar 1Samuel 1.3-5 e 9.12-24. Esses textos nos apresentam a cena de um ritual de abate de animal, com a dedicação de partes do animal a Deus, e uma extravagante refeição familiar ou comunitária num local de culto a Deus. A narrativa de 1Samuel não qualifica esses sacrifícios como sendo shelamim, eles são simplesmente “sacrifícios” (zebaḥ), mas sua descrição é muito parecida com as descrições rituais e legais dessa oferta que aparecem em Levítico 3 e 7.

Eu não quero entediar o leitor com essas prescrições, mas duas questões são importantes aqui. A primeira é que se trata de uma oferta voluntária que podia ser caracterizada como uma oferta de gratidão (tôdâ, Lv 7.12-15), um voto (nēder, Lv 7.16-17) ou voluntária (nĕdābâ, Lv 7.16-17) de forma geral. O caráter de celebração nos três casos é claro, o que explica o fato de a oferta de “paz” ser essencial nos dias de festa (1Sm 1.3-4; Dt 12.11-12). A segunda é que a oferta de “paz” inclui, assim como outras ofertas, a “imposição de mãos” e a “aspersão do sangue sobre o altar” (Lv 3.2). Também é exigido que o animal seja dividido em partes, para que seja feita uma “oferta pelo fogo” (Lv 3.3-4, ’iššeh), que é um “aroma agradável a Yahweh” (Lv 3.5) e “alimento queimado para Yahweh” (3.11, leḥem ’iššeh laYHWH) e o restante do animal é preparado para ser consumido entre os sacerdotes, o ofertante e seus convidados, que logo veremos quem são.

A oferta shelamim promove um ambiente de contato com a presença divina por meio do sangue do animal que toca no altar e pela recepção da oferta por Deus como aroma agradável. Mas há algo de especial aqui, pois na oferta shelamim, o contato com a presença divina está intrinsecamente ligado ao compartilhar de comida, como numa refeição de aliança entre o ofertante, a comunidade e Yaweh. Trata-se da celebração, entre Yahweh e seu povo, dos benefícios da aliança. É claro que tais benefícios não se limitam ao ofertante, mas extrapolam o indivíduo e alcançam toda a comunidade. O fruto da terra e do esforço humano, representados pelo animal, que foi cuidadosamente procriado e cuidado, e pelos outros produtos alimentícios como farinha de trigo, azeite e vinho e pães, resultado do trabalho e da cultura humana, são oferecidos a Deus em reconhecimento da bênção divina como fonte da vida.

Essas bênçãos não são individuais, portanto devem ser desfrutadas como experiência da generosidade divina para toda a comunidade. Uma vez que a bênção divina é desfrutada por meio de alimentos, dos quais uma parte é ofertada a Yahweh, eu sugiro que no ritual de “paz” o “aroma agradável” que sobe até Yahweh inclui também a alegria comunitária ao desfrutar da bênção divina.

Eu queria concluir essa explicação sobre a oferta shelamim com duas questões muito importantes. A primeira é que essa ideia de ter comunhão de mesa como uma expressão de estar em paz com alguém é proveniente de práticas comuns no contexto do antigo Israel. Um bom exemplo é o caso de Jacó e Labão. O relacionamento entre genro e sogro era conturbado. Na ocasião em que ambos selam a paz, Jacó oferece um sacrifício e convida seus parentes para comer (Gn 31.54). Compartilhar de uma refeição significa estar em paz com o outro.

A segunda questão é que a oferta shelamim não é uma experiência individual, mas comunitária, que exige generosidade. Como nesse caso de Jacó e Labão, ou nos casos de 1Samuel que eu citei, a oferta shelamim é uma oferta com muitos convidados. Como eu disse, isso tem a ver com o fato de ser o desfrutar das bênçãos da aliança de Israel com Yahweh, que não podem se limitar ao indivíduo. Entre os seus convidados, é claro, estava sua família, o que não se limitava somente a mulher e filhos, mas também a todos os parentes que vivam no mesmo ambiente domiciliar, assim como servos e outras pessoas. E sobre essas “outras pessoas” que eu quero falar. Como o desperdício de carne seria evitado a todo custo numa cultura antiga em que a ingestão de calorias era bem calculada, a exigência do texto bíblico de que a carne seja consumida no mesmo dia em alguns casos de shelamim (oferta de gratidão [Lv 7.15]), ou até no máximo o dia seguinte (voto ou voluntária [Lv 7.16]), a participação de muitas pessoas era essencial.

Ainda que o texto de Levítico não diga, além da família, é possível imaginar outros convidados menos favorecidos para esse grande banquete. Uma lista dessas pessoas é apresentada em Deuteronômio 14.29, em ocasião de um banquete de celebração da aliança não relacionada à oferta shelamim, mas ao dízimo a cada três anos: o levita, o peregrino, o órfão e viúva.

O que nós temos nessa experiência de “paz com Deus” é o seguinte. Deus não come carne, mas a oferta shelamim é apresentada como uma experiência de comunhão de mesa com Deus. Como isso é possível? Ter uma experiência de comunhão de mesa “em paz com Deus” significa que oferecemos uma parte do que temos a Deus em reconhecimento de que o que temos vem dele. Muitos de nós estamos acostumados a fazer isso doando algo para a igreja, ou no caso do antigo Israel, queimando parte da oferta no altar. Mas uma parte importante desse reconhecimento da bênção de Deus é quando oferecemos a outros a oportunidade de desfrutar dessas bênçãos, especialmente aqueles menos favorecidos. Pensando em comunhão de mesa, eu diria que estar em paz com Deus é desfrutar da hospitalidade de Deus e a abundância de sua mesa e oferecer essa mesma hospitalidade a outros.

Paz com Deus no Novo Testamento

Eu não quero me alongar muito, mas é muito importante ver como essa perspectiva de que a experiência de paz com Deus significa ter comunhão de mesa, experimentar as bênçãos de Deus e oferecê-las a outros permeia o ministério de Jesus, a experiência e a prática da igreja primitiva, a teologia e a escatologia cristã.

A ideia é somente citar alguns eventos e algumas informações e deixar que o leitor perceba como cada uma dessas coisas se relaciona com a experiência da oferta shelamim e o significado da experiência de “paz com Deus” como apresentei.

Sobre o ministério de Jesus, é importante prestar atenção em uma das críticas feita a Jesus: que ele era “glutão e beberrão, amigo de publicanos e pecadores” (Mt 11.19; Lc 7.34). Tal acusação demonstra que estar à mesa, comendo e bebendo, em algum tipo de refeição farta que, em alguns casos, poderia ser um banquete (Lc 5.29), era prática comum de Jesus. Tal acusação também demonstra a companhia de Jesus nessas refeições, publicanos e pecadores. Nessa experiência, estar à mesa na companhia de Jesus era desfrutar de paz com Deus. Mas isso, somente se na ocasião, a hospitalidade divina também é estendida a quem precisa. Por isso, nas refeições, Jesus colocava publicanos (cobradores de impostos) e pecadores (devedores de impostos) juntos, à mesa, e seu objetivo era reconciliar as duas partes. Isso se torna muito claro na narrativa da refeição que Jesus participa na casa de Zaqueu (Lc 19.1-10).

Não é à toa, então, que Jesus deixou para nós, como uma forma de lembrarmos de sua pessoa, experimentarmos os benefícios de seu ministério, e fomentarmos a esperança de sua futura vinda, uma refeição comunitária, a ceia. É claro que, infelizmente, nossa experiência de ceia, hoje, esteja bastante longe daquilo que era no princípio. A abundância, conforme os recursos da igreja, era o suficiente, por exemplo, para alguns irmãos até ficarem bêbados (1Co 11.21). Além disso, a experiência era entre pessoas com muitos recursos e pessoas com poucos recursos, daí aquela forte exortação de Paulo sobre uma celebração da ceia em que cada um come o que trouxe, deixando alguns com fome (1Co 11.21). A paz com Deus, por meio do ministério de Jesus, deve ser comemorada e desfrutada numa refeição em memória de Jesus. Isso, com certeza, também inclui uma experiência comunitária em que a generosidade com os mais necessitados é um fator determinante para que seja uma celebração em memória de Jesus.

Por fim, como disse sobre a celebração da ceia, há uma experiência que fomenta a esperança da vinda futura de Jesus. Não há dúvida de que essa esperança diz respeito a uma vida em plena paz com Deus e de experiência plena de sua presença e de suas bênçãos. Talvez, se nossas experiências de ceia fossem mais próximas daquela da igreja primitiva, com abundância de comida, incluindo a participação de pessoas com menos recursos, nossa teologia e escatologia seriam mais parecidas com o que vemos no Novo Testamento. Ali, a imagem mais insistente sobre a vida eterna com Deus é a imagem de um banquete. Algumas das parábolas de Jesus sobre o Reino de Deus falam exatamente sobre um banquete, mais especificamente um banquete nupcial, ou seja, uma festa de casamento (Mt 22.1-14; Lucas 14.15-24). Ainda que não muito detalhada, essa imagem de uma festa de casamento como expectativa da vida vindoura aparece explicitamente em Apocalipse 19.7-9, em que aparece a expressão “bodas do cordeiro”.

Mas eu quero mencionar com mais ênfase a parábola do filho pródigo (Lc 15.11-32). Nessa parábola o filho mais novo se desfaz de seu relacionamento com seu pai e sua família, a fim de desfrutar de uma “vida boa”. Depois de comer tudo do bom e do melhor, ele se encontra comendo com os porcos. Arrependido, volta para a casa de seu pai, que o recebe de braços abertos e reafirma o pertencimento do filho à família, ou seja, declara que está tudo em paz, com um belo churrasco (Lc 15.23-24). Pai, filho, família, servos e convidados, todos num grande banquete. E, como sabemos, essa parábola fala sobre a hospitalidade de Deus para conosco e, diante do que temos visto, uma experiência de estar em paz com Deus.

Conclusão

Quero deixar algumas aplicações bastante explícitas. A primeira é que a fim de realmente repensarmos nossa imaginação sobre a experiência de paz com Deus, precisamos mudar certas práticas. Uma delas, em minha opinião, é a forma como temos comunhão no culto. Essa prática de termos comunhão de mesa, abundância de suprimentos oferecidos a todos, inclusive para gente de fora e gente necessitada, é essencial para nossa experiência de paz com Deus. A segunda é o modo como vivemos nossa vida diária. Apesar das limitações de nossos recursos financeiros, todos temos o suficiente para dividir com quem tem menos. Não se trata meramente de dar esmolas ou ajudar alguém financeiramente, mas abrir o seu lar, puxar a cadeira e oferecer sua comida, seu tempo, sua conversa, sua vida para quem tem necessidade de hospitalidade, de paz com Deus. Nisso também experimentamos paz com Deus. Assim, percebam que apesar de eu estar falando de banquetes, abundância de recursos, uma experiência realmente rica, eu não estou falando de teologia da prosperidade. A experiência de paz com Deus não existe quando as bênçãos de Deus chegam até você e param ali. Somente há experiência de paz com Deus quando suas bênçãos chegam a nós e são oferecidas a quem é mais necessitado do que nós. Quando isso acontece, podemos ter certeza de que estamos em paz com Deus.