O Estudo da Bíblia nas línguas originais é mesmo necessário?

Estevan Kirschner
19/10/2017
Línguas Originais

Sob o ponto de vista estritamente objetivo, a questão sobre o espaço dedicado ao estudo das línguas originais da Bíblia, o Hebraico e o Grego, é procedente. Uma parcela considerável do currículo do Curso de Bacharel em Teologia do CETEOL abrange o estudo dessas duas línguas, além de matérias direta ou indiretamente relacionadas a elas, como a Exegese do Antigo e do Novo Testamento.

            Quando porém, esses dados são comparados com grande parte daquilo que compõe o estudo teológico em muitos seminários evangélicos, não é nada estranho de se perguntar: como pode todo esse esforço, dedicação e tempo despendidos no estudo das línguas hebraica e grega trazer benefícios para o estudante de teologia, ou seja, àquele que está sendo preparado para o exercício do ministério cristão? Neste ponto, é preciso destacar que o CETEOL está na “contra-mão” daquilo que se tem praticado, de modo geral,  nas instituições de formação teológica hoje em dia. Grande parte das faculdades e seminários já abdicou da ênfase na necessidade de capacitação do estudante de teologia nas línguas originais. Essa tendência se iniciou já há algum tempo e hoje, praticamente, domina a cena.

            Antes de apresentar as razões que, do nosso ponto de vista, não só justificam como também exigem o destaque dado às línguas originais da Bíblia no CETEOL, gostaria de propor uma breve análise de sua relevância num momento decisivo da história da Igreja, a Reforma Protestante do século XVI.

1.     Lutero, a Justificação e a Bíblia

Quem estuda a história da Igreja é capaz de perceber, sem muito esforço, como a análise do texto bíblico nas línguas originais teve importância crucial no desencadeamento da Reforma Protestante na Alemanha. Não seria exagero algum dizer que sem o estudo da Bíblia nas línguas originais não teria havido a Reforma, pelo menos não do jeito que aconteceu. Na Igreja medieval predominava o Latim, tanto como língua da erudição nos monastérios como língua da missa pública. Esse estado de coisas surgiu por causa da ascensão da igreja romana e, consequentemente da língua por ela utilizada (o Latim). A versão latina da Bíblia, a Vulgata de Jerônimo, era o texto padrão para a Igreja na decisão de questões de doutrina e de prática. As línguas originais da Bíblia foram virtualmente abandonados. Como a maioria do povo cristão da Europa não conseguia entender o Latim, a igreja medieval o utilizou como instrumento de dominação e de promoção de doutrinas que não correspondem à verdadeira fé bíblica. As ênfases no sacramentalismo e na doutrina da salvação pelas obras receberam grandes estímulos graças a essa situação.

Pouco tempo antes de Lutero aparecer em cena, o movimento cultura chamado de Renascimento aflorou, principalmente, no sul da Europa. Houve um interesse renovado nas línguas clássicas que, além do Latim, incluíam o Hebraico e o Grego. Foi nesse período que Johann Reuchlin (1455-1522), de Stuttgart na Alemanha, tornou-se um dos principais conhecedores do Hebraico bíblico, lançando uma nova gramática e dicionário. Essa obra foi de grande auxílio para Lutero, especialmente na tradução do Antigo Testamento hebraico para o Alemão.

O contemporâneo de Lutero na Holanda, Desidério Erasmo (1466-1536), foi outra personagem importante para a Reforma. Embora não tenha concordado com seu colega agostiniano, Lutero, em pontos fundamentais da Reforma, Erasmo prestou-lhe grande ajuda ao publicar uma nova edição do Novo Testamento Grego em 1516. O uso desse Novo Testamento em língua grega proporcionou a Lutero a possibilidade de redescobrir a doutrina fundamental da justificação pela fé, a partir de estudos feitos nas cartas de Paulo aos Gálatas e aos Romanos. Foi, também, ferramenta inestimável na tradução do Novo Testamento para a língua alemã.

Um dos legados mais importantes da Reforma foi a de dar a Bíblia ao povo em sua própria língua, a fim de que as Escrituras pudessem trazer a verdade de Deus para a mente e o coração de todas as pessoas. Contudo, para que isso possível era essencial a pesquisa e o labor de pessoas capacitadas, como foram Lutero, Melanchton, e Calvino, entre outros, que pudessem ler, entender e expor o texto bíblico como ele nos foi originalmente dado, i.e., no Hebraico e no Grego. Sem que isso tivesse acontecido, quem sabe por quanto tempo a igreja estaria enredada para doutrinas e idéias que não correspondem ao evangelho autêntico de Jesus Cristo

 

2.  O Obreiro Cristão e a Bíblia Hoje

Para o obreiro cristão, nos dias de hoje, a ferramenta de trabalho fundamental continua sendo, é claro, a Palavra de Deus. E, assim como foi para Lutero e os outros reformadores do passado, o estudo da Bíblia nas línguas originais permanece sendo uma necessidade inadiável para aquele que pretende expor, ensinar, pregar e aconselhar do ponto de vista da fé bíblica. Exponho, a seguir, o que no nosso julgamento são algumas das principais razões para isso.

 

2.1   A manutenção das Doutrinas Principais da Fé depende do Entendimento Correto do Texto Bíblico nas Línguas Originais.

 

Todos nós usamos traduções da Bíblia, seja em Português, Alemão ou outro língua moderna. A versão Atualizada de João Ferreira de Almeida, por exemplo, é resuldado de muitos anos de pesquisa e trabalho árduo nas línguas originais feitos pelo tradutor há quase 300 anos. Essa importante tradução tem sido usada com sucesso por muitos crentes, pastores e mestres. O que se percebe, porém, é que sempre tem surgido idéias e conceitos, ou interpretações,  que são teoricamente baseadas nessa ou nalguma outra tradução. Como estar certo de que essas idéias ou interpretações correspondem ao que a Bíblia diz? Não há outro caminho a não ser o estudo do texto no Hebraico e/ou no Grego.

Há algum tempo li que uma pregadora de sucesso na TV afirmou que o crente pode ter o Espírito santo habitando no seu espírito (humano) ao mesmo tempo que ter um demônio habitando sua alma. Isso tem implicações tremendas para a Pneumatologia (doutrina do Espírito Santo). Dificilmente alguém teria dito algo semelhante a isso em toda história da doutrina cristã sem ter sido questionado e considerado falso mestre. Hoje, entretanto, é possível não só ouvir os maiores disparates e interpretações das mais conflitantes com a Palavra, como também ter um grande número de pessoas seguindo tais ensinos. A partir do estudo do Novo Testamento grego, por exemplo, pode-se afirmar sem medo de errar que uma afirmação como a descrita acima jamais poderia ser verdadeira. Mesma que Paulo fale de “espírito (pneuma), alma (pshyche) e corpo (soma)” em I Ts 5:23, ele certamente não está propondo uma comportamentalização absoluta desses três aspectos no ser humano. Tanto o pensamento hebraico do Antigo Testamento como o Grego do Novo Testamento sugeram que, ainda que haja aspectos discerníveis constituindo o ser humano, ele é acima de tudo um todo, uma unidade integrada. Por essa razão Paulo é capaz de dizer em Rm 12:1 que os cristãos devem oferecer seus “corpos” como “sacrifício vivo, santo e agradável a Deus”, e que isso é “culto racional”(12:2). Ao mesmo tempo, ele diz em Rm 13:1 que toda a psyche (no original; lit.; “alma”) deve ser submissa às autoridades. Naturalmente ele não quer dizer com isso que os crentes devam submeter-se às autoridades. Naturalmente ele não quer dizer com isso que os crentes devam submeter-se às autoridades civis apenas com suas almas. Um aspecto representa o todo, dependendo da ênfase dada no contexto. Mas, acima de tudo existe uma unidade integrada. Assim, é um descalabro completo, que deve ser rechaçado, dizer que o Espírito Santo pode habitar o espírito humano, mas um demônio a alma. Ou o Espírito toma conta de todo o crente ou não.

 

2.2   A Avalição Adequada das Correntes de Pensamento Moderno, que Tenham Influenciar a Mentalidade Cristã, depende do Estudo do Texto Bíblico nas Línguas Originais.

 

Há hoje uma gama muito grande de grupos religiosos e seitas que apelem ao texto bíblico para sustentar essa ou aquela doutrina “excêntrica” que defendem. Por exemplo, as famosas Testemunhas de Jeová insistem (e são bem treinadas para isso_ que Jo 1:1c diz que o Verbo (lit.: a Palavra =  Jesus Cristo, cf. Jo 1:18) não é Deus, mas um “um deus” ou ser “divino”. A base para isso é, para elas, o fato do texto grego não apresentar artigo definido antes da palavra “Deus”(theos, no Grego), “é o Verbo era Deus”. Mas uma olhada no contexto de Jo 1, a partir do texto grego, permite observar-se que mesmo quando João ( e outros escritores) fala do único Deus ele não usa sempre o artigo definido, Jo 1:6 a 8. Para os que conhecem um pouco melhor a língua grega, a omissão do artigo em Jo 1:1c não causa qualquer problema, pois é essa a maneira normal com que se sinaliza qual [e o sujeito da oração e o que é seu predicativo: “o Verbo (sujeito, com o artigo) era Deus (predicativo, sem artigo)”

 

2.3   O Estudo Sério da Bíblia que, Conduz à Consolidação da Fé Recebe Grande Estímulo na Pesquisa do Texto Bíblico a Partir das Línguas Originais.

 

É claro que pode-se crescer e ficar firme na fé sem o mínimo conhecimento das línguas originais; se assim não fosse, todo o crente precisaria fazer um curso de Hebraico e Grego. No entanto, aquele que tem a oportunidade de estudar a Bíblia nas línguas originais recebe dividendos importantíssimos, que lhe possibilitarão a transmissão do ensino bíblico de uma forma muito mais aprofundada e proveitosa. É interessante observar que, ao longo da história de cristianismo, os períodos de maior desvio do evangelho e da Palavra de Deus coincidem exatamente com o desprezo ou a negligência do estudo da Bíblia a partir do Grego e do Hebraico. Isso não significa concluir que o estudo da Bíblia nas línguas originais é panaceia para todos os males espirituais. É evidente que não. O Liberalismo teológico, que reinou na Igreja evangélica por mais de 150 anos, também era caracterizado pelo estudo do Antigo e do Novo testamento no Hebraico e no Grego – Nem por isso seus teólogos foram protegidos de erros e desvios. Mas a exortação de Paulo ao jovem Timóteo preciso ser ouvida de novo em nossos dias: “Procure apresenta-se a Deus aprovado, como obreiro que não tem do que se envergonhar, que maneja corretamente a palavra da verdade (2 Tm 2:15).

Existe hoje uma espécie de “analfabetismo bíblico” em grande parte das igreja evangélicas no Brasil. Esse “analfabetismo bíblico” implica em confusão doutrinária, falta de estabilidade espiritual e suscetibilidade a influências sutis e perniciosas. Não há atalhos para reverter essa situação a não ser a preparação adequada daqueles que serão os formadores de opinião no meio do povo evangélico, os futuros pastores, missionários e educadores cristãos.

 

2.4   A Pregação Evangélica Pode se transformar em Alimento Sólido para o Povo de Deus quando é Preparada a Partir das Línguas Originais.

Um dos sintomas, mas também cusa, do que chamamos de analfabetismo bíblico no ponto anterior, é, sem dúvida, a fraqueza de que se verifica em muitos púlpitos hoje em dia. A Bíblia, muitas vezes é usada apenas como “trampolim” para se dizer qualquer coisa que o pregador ache conveniente dizer; servindo somente de ponto de partida. Há, felizmente, exceções à regra, mas não é comum se ouvir uma pré-dica que seja desenvolvida em relação aquilo que o texto bíblico realmente diz. A “receita” preferida é a da “água com açúcar”, o que não pode produzir algo de valor permanente. Receio que muitos pregadores tenham sucumbido à tentação de oferecer “alimento de consumo rápido”, em analogia ao tipo de “comida” que não alimenta, mas que seduz muita gente por causa da propaganda.

O pregador, ou professor, não precisa ser um especialista nas línguas originais para fazer bom uso delas na exposição bíblica. Basta que tenha disposição bíblica. Bata que tenha disposição e que priorize o estudo e a preparação pessoal, lançando mão da literatura que suplemente seu conhecimento na área. Também não é necessário expor seu conhecimento de maneira exibicionista, pronunciando no meio do sermão cada palavra grega ou hebraica que tiver pesquisado. O mais importante aqui é a convicção e a segurança com que as lições e propostas do texto são veiculadas, consequência de um estudo prévio bem realizado.

 

3.  Conclusão

Ao priorzarmos as línguas originais, não desprezamos a relevância e os benefícios que os estudos feitos em outras disciplinas e matérias podem produzir na formação teológica. Há muito que aprender nas áreas de Teologia Sistemática e Histórico e na Teologia Prática. Nos parece, porém, que a falta de atenção as línguas originais é capaz de fazer com que muito de que se poderia aproveitar dessas outras áreas de estudo seja comprometido por uma leitura deficiente de texto bíblico. Achar que uma preparação mais prática (ou pragmática) é o desejável, significa não ter uma visão adequada para o futuro. Não há prátia que não seja baseada em teoria. O problema está em só ter uma teoria com base adequada ou não.

Outra coisa importante de se destacar é que na preparação para a obra de Deus não se deve, nem se pode ter, o espírito de mediocridade que permeia muito do contexto educacional em nosso país. Será que a preparação para o ministério cristão pode ser feita de qualquer jeito? Ou será que não é o próprio cristianismo bíblico que promove a excelência em tudo aquilo que se faz, especialmente com vistas à obra de Deus no mundo? Que não sejam as dificuldades naturais inerentes ao aprendizado do Hebraico e do Grego que impeçam aqueles que desejam ser “obreiros aprovados por Deus”, e que “manejam corretamente a palavra da verdade”, de prosseguir nesse caminho. No que depender do CETEOL, podem contar conosco!